Afreudite, blog da blague "La valeur du message gît dans sa différence avec le code" "L´équivoque est la seule arme dont on dispose contre le symptôme" Lacan

Saturday, September 02, 2006

A sabedoria do deserto

afreudite*
A família pode ser encarada como um conjunto. B. Russell detectou um paradoxo na teoria dos conjuntos que se enuncia do seguinte modo : um catálogo dos catálogos que não se compreendem a si próprios faz ou não parte de si mesmo ? Qualquer que seja a resposta esbarra-se com um paradoxo : Se se inclui o catálogo dos catálogos não se deveria incluir, se não se inclui deveria incluir-se.

Na matemática várias teorias , entre elas a teoria dos tipos de Russell tentaram resolver esta aporia que ameaça os próprios fundamentos da matemática.

Se se aceitar que o catálogo dos catálogos faz parte de si mesmo, deparamos com um conjunto fechado, consistente mas incompleto (o catálogo não se inclui a si mesmo) ; em contrapartida, se se auto-incluir o catálogo dos catálogos obtemos um conjunto "aberto", completo mas inconsistente.

Transpondo, como sugere Lacan, estas considerações esquemáticas do terreno da matemática para o da família, podemos distinguir a família tradicional, estruturada em torno do pai , a encarar como o catálogo dos catálogos, como um conjunto fechado, da família dos nossos dias, que já não gira em torno da figura paterna, que aparece mais como um conjunto aberto.

Cada um destes tipos de família apresenta as suas vantagens e inconvenientes, entre estes , a suas formas distintas de patologia.
Freud que viveu num tempo em que predominava a família tradicional, embora apresentando já sinais de crise, falou de patologias edipianas, paternas (ele chegou a designar o complexo de Édipo como complexo paterno) tais como a histeria e a neurose obsessiva.

No nosso tempo em que a família tradicional, fechada, cede lugar às novas formas de família, surgem , ao lado das patologias edipianas, outro tipo de patologias , a que alguns autores chamam "novas formas do sintoma" que compreendem a chamada depressão, a anorexia , a bulimia, entre outras e que têm como paradigma , a toxicomania.

A toxicomania, tão espalhada nos nossos dias e que atinge frequentemente, as famílias desestruturadas do ponto de vista tradicional, caracteriza-se por uma forma de gozo autista, fechada sobre si mesma, que exclui o Outro. É esta forma de gozo autista que converte a toxicomania no tal paradigma das "novas formas do sintoma" que , ao contrário das "velhas", as boas neuroses edipianas, resistem à "talking cure", levantando novos desafios à psicanálise.

A parábola que a seguir apresento, reporta-se a um tempo e a um espaço (o deserto) onde predomina a família tradicional, paternalista.

Ao morrer, um beduíno deixou aos três filhos, como herança, os seus 17 camelos que deveriam ser dividos da seguinte forma : metade para o promogénito, um terço para o do meio e, um nono para o mais novo. Não era muito equitativo, segundo os nossos padrões igualitaristas, mas não era questionado por assentar numa longa tradição.
Ao confrontarem-se com as cláusulas do testamento, os filhos não sabiam como as executar. !7 não era um número divisível nem por dois, nem por três nem por nove. Calcularam e voltaram a calcular, discutiram, exaltaram chegando a envolver-se em acesas disputas físicas.

Apercebendo-se dos conflitos que dilaceravam a família, o velho Ahmed, irmão do pai, apresentou-se na tenda dos irmãos desavindos e, depois de algumas sábias reflexões sobre o valor da família, terminou o seu arrazoado dizendo : "Em nome da amizade para com o vosso defunto pai e, no intuito de ajudar a resolver os vossos diferendos, resolvi oferecer-vos a única coisa que possuo, o meu velho camelo.

Os irmãos, sensibilizados agradeceram a generosidade do velho e resolveram proceder às partilhas. Com o camelo oferecido pelo velho , as contas eram fáceis de fazer . Metade de 18 para o mais velho ou seja 9 camelos, um terço para o do meio , o que dava 6 e, finalmente, um nono para o caçula, o que perfazia 2 camelos.

Feita a distribuição dos 9+6+2 camelos eles descobriram, espantados que sobrava um camelo. Voltaram uma e outra vez a fazer as partilhas, discutiram mas chegavam sempre à mesma conclusão : sobrava sempre um.

Lembrando-se da generosidade do velho Ahmed, que não por acaso passava por ali, naquela ocasião, resolveram devolver o camelo subsistente, àquele que se sacrificara , aparentemente , em nome da amizade e dos valores tradicionais.

1 Comments:

Blogger HCM said...

Excelente. É a parábola dos números primos: tal como nas nas heranças basta um a mais para que se dividam.

11:09 AM

 

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